quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Regresso à Terra...

E após 3 semanas nas nuvens, no passado Domingo acordei para a "dura" realidade que não sou um Deus do Atletismo.

Várias vezes tenho ouvido pessoas comentarem que com o passar do tempo o nosso cérebro retêm mais facilmente os momentos maus do que os bons. Não sei se é assim para muita gente, mas para mim, talvez por ser entusiasticamente optimista, é exactamente ao contrário."Esqueço" demasiado facilmente os momentos difíceis e retenho em gloriosa apoteose os momentos fantásticos. Por este motivo, após a Maratona, mal me deixou de doer as pernas tornei-me um snob das corridas. Sentia que tudo podia e nada era demasiado longe. Procurava afincadamente uma próxima prova, e não podia ser uma prova qualquer. Agora olhava com desdém para provas de 10km, com interesse reduzido para as meias e apenas as superiores a 40km valiam a pena pesquisar. Para verem o grau de demência a lista de provas que andei a ver incluíam: Maratona de Madrid, Maratona de Liverpool, Maratona de Paris, MIUT, Ultra Trail de Sesimbra...

Mas como é que tudo isto está relacionado com o treino de Domingo?

Este ano decidi que ia aproveitar a hora extra devido à mudança de hora, não para dormir com é habito, mas para correr. Deste modo às 7h estava a sair de casa rumo ao Jamor, a correr.
Objectivo: Jamor!
O objectivo era fazer um bom longão, fazer os 8km até ao Jamor pela Marginal em ritmo de Maratona, em torno dos 5min/km (ritmo esse que só existe na minha cabeça porque na Maratona propriamente dita km's nesse tempo foram quase inexistentes...), depois explorar o Complexo do Jamor incluindo uma passagem pela zona florestal (porque agora o foco vai ser as provas de trail e no mínimo Ultras...) e por fim regressar a casa pelo mesmo caminho.

Este era o plano, agora a realidade... 

Logo aos 2km tive que parar por motivos técnicos: fechei mal o camelback e metade da água já tinha encharcado a mochila, as costas e os calções, e por isso fiz praticamente todo o treino ensopado. Os km iam passando mas o ritmo poucas vezes chegava aos 5min/km e estava a custar-me. 

Embora passe todos os dias à "porta" do complexo do Jamor nunca tinha corrido na zona da pista de canoagem (apenas na zona florestal na Corrida das Localidades). Dei umas voltas em torno da pista e pelas "ilhas". Distraído com a paisagem achei que era tempo de passar ao "trail mode" e meti-me por um atalho bem inclinado que me levou até à entrada do Estádio Nacional. Cheguei ao topo com o coração a saltar-me do peito e sem fologo para continuar a trilhar... Optei por me deixar ir na descida em alcatrão de volta ao terreno mais plano.

Ainda dei mais umas voltas ao complexo mas com 12km nas pernas comecei a temer que não conseguisse regressar a casa... Voltei para a Marginal e iniciei o doloroso regresso a casa. Sentia as pernas presas, os músculos pareciam pedras. Pensei várias vezes na nota de 10€ que levo sempre na mochila e se a deveria entregar aos senhores da CP...
O "retorno"... ou talvez não...
Fui aguentando e para me distrair ia fazendo contas ao número de km's que faria se chegasse a casa. Os meus treinos longos são sempre planeados ao pormenor com muito pouco espaço para o improviso, desse modo sei sempre quantos km's vou fazer. Mas no Domingo com tanto improviso perdi-me nas contas. Quando estava a chegar ao passeio Marítimo, onde tenho várias referências, chego à conclusão que se for directo para casa não chego aos 21km... Não pode ser! Então uma pessoa levanta-se cedo, com frio, encharcado, a sofrer e não faz sequer uma Meia! Não, não e não. Toca de dar mais uma voltinha ao rabo da baleia para fazer os 22km. E assim foi...quase...quando cheguei ao ínicio da rampa perdi a luta psicológica com as minhas pernas e atalhei pela Marina...

Fiz 22km certinhos em 1h53. Não foi muito mau, mas custou-me imenso e acho que não conseguia dar mais um passo. Fiquei a pensar como é que consegui terminar a Maratona, só pode ter sido muita sorte.

Este choque com a realidade teve um lado bom, fez-me colocar as minhas prioridades na ordem certa. Há coisas muito mais importantes do que coleccionar medalhas... Há muito trabalho para se conseguir alcançar um objectivo dessa magnitude e há que saber apreciar o caminho.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Corrida do Aeroporto 2013 - 20 Outubro 2013

No passado Domingo foi dia de regressar às provas depois da Maratona. Fui participar na Corrida do Aeroporto.

Esta corrida é muito especial para mim. Primeiro porque trabalho no Aeroporto e portanto há mais gente conhecida. Depois porque o ginásio que apoia o evento é o "meu" ginásio, mais gente conhecida incluindo muitos dos treinadores que embora não "corram" de forma sistemática vão fazer a prova. Essencialmente é muito convivio, antes depois e durante! Este ano ainda mais forte porque foi a minha estreia a correr pelo "Clube TAP". Como possivelmente já perceberam trabalho na TAP. Muito recentemente o Clube dos trabalhadores reactivou a secção de Atletismo e esta foi a primeira corrida em que pude participar. 

Este ano com os aviões a descolar para Sul  possibilitavam um enquadramento perfeito!
Cheguei um pouco mais tarde do que gostaria até porque ainda não tinha o dorsal. Esta também foi uma novidade para mim, estar a meia hora da hora de partida e ainda não ter o dorsal. Picuinhas/Metódico como sou, ao fim de 5 minutos de estar sem sucesso à procura do colega com os dorsais, comecei logo a stressar... Felizmente lá o consegui encontrar mas acabei por não ter muito tempo para confraternizar porque já estava quase na hora e ainda tinha muitas caras conhecidas para cumprimentar. Espero numa próxima oportunidade poder rectificar a situação, esperei tanto tempo para fazer parte de uma equipa que tenciono dedicar-me a este projecto.

Mais uma vez tive a companhia do meu amigo Duarte, embora desta vez tenha começado a dizer que ia na descontra e nos tenhamos separado logo na partida. No entanto acabou por fazer uma prova espectacular quebrado o seu RP... Quem é que faz um RP numa prova desta! Duarte, para a próxima vou contigo e é para fazer em 50 min!
A posar para a foto e o pelotão a formar-se...
Entre conversas e fotos fomos para o "garrafão" quando já lá estava muita gente, devemos ter ficado no último terço. Quando se deu a partida foi o caos. Já não tinha uma partida assim há muito tempo. Nas últimas provas ou tenho saído de uma box, ou eram provas do Torneio das Localidades em que toda a gente saía a assapar ou era a maratona onde toda a gente saía no controlo.

Acabou por ser divertido porque assim fui ultrapassando muita gente e cada vez que via alguém conhecido  gritava um força, o que nos primeiros km foi bastante frequente. Gosto muito do percurso desta prova, não é dos mais fáceis nem propício a bater records (tás a ouvir Duarte) mas é variado e nada monótono. Desde a passagem na pista Moniz Pereira, e a sensação que estamos a correr sobre almofadas. Passando pelo Parque Urbano da Alta de Lisboa em que atravessámos a ponte sobre o lago (eu não senti, mas o Duarte diz que quando passou pela ponte esta vibrava de tal modo com as passadas dos atletas que chegou a temer que fosse parar à água...). E claro a volta no Parque das Conchas, com todo o sobe e desce associado. Com um D+ de 110m é uma prova dura, mas termina numa descida de 500m que permite um sprint supersónico e um final saturado de endorfinas!


Com a dose extra de adrenalina, comecei a prova cheio de punjança. Mesmo com todas as ultrapassagens até ao km4 a média ficou perto do 4:15 por km. O km4 coincide com o "retorno" no Parque Urbano, uma curva apertada seguida de uma subida de quase 1km, mas mesmo aqui consegui manter um bom ritmo, em torno dos 4:30. No km5 encontro o único abastecimento, mas como o dia até está fresco opto por não recolher a água. O percurso fica mais plano e até à descida para a entrada na Quinta das Conchas começo a sentir-me um pouco cansado, mas as pulsações estão OK e tenho a sensação que estou a manter um bom ritmo, mas não ia...

Segue-se a entrada na Quinta das Conchas, para mim, a pior parte do percurso. É uma descida algo ingreme em empedrado e que com a chuva da noite estava molhada e escorregadia. Mas vale a pena, porque a seguir entramos na Quinta e para além de um excelente percurso temos gente a ver e a puxar pelos atletas. Como seria de esperar o ritmo baixou um pouco, 4:45 nos km 8 e 9. O último km, já em alcantrão, e com o final a descer, voei para a meta.
Desta vez não tem som, mas estou a rir-me porque a Margarida está ao berros a puxar por mim! :)
O primeiro "hum" foi quando o relógio apita para os 10km antes de chegar à rotunda, a uns 200m da meta: "Ok, a prova é um pouco "maior" mas deve dar para os 45min". O segundo "hum" foi quando parei o relógio e vi 45:15: "Ah! Como é possivel já passar dos 45', devia ter alguns segundos de folga...". Mas não tinha, aquele km após o abastecimento, em plano, onde pensava que estava no ritmo foi feito quase nos 5 minutos por km. Não consigo perceber o que se passou, lembro-me de ter passado por um grupo com um "sargento" que estava sempre a berrar com o grupo para correrem mais depressa. Devo ter-me distraído  e parece que as pernas engrenaram na velocidade da Maratona, e não avisaram o resto do corpo...

No final tivemos direito à medalha pin magnético, uma maçã e 2 garrafas de água, o que foi óptimo porque estava cheio de sede, talvez não tenha sido grande ideia não beber no abastecimento...

Embora o resultado não tenha sido exactamente o esperado, fui muito feliz nesta prova. Em termos competitivos, a velocidade média foi exactamente a mesma da prova do ano passado, e no ano passado estava a treinar velocidade (foi na altura em que estabeleci o meu RP nos 10km). Mas fundamentalmente porque foi um óptimo convívio! Até para o Ano!
A foto de família, desta vez sem a "medalha" porque o iman tem a mania de não segurar nas pessoas...





sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Rock’n’Roll Maratona de Lisboa – Estatística

Como já referi algumas vezes, tenho a pancada da estatística. Os meus colegas de trabalho estão sempre a gozar comigo que até para ir ao wc tenho uma folha de excel, são pessoas muito sensíveis… Após alguns dias a matutar decidi fazer uma análise estatística aos resultados da Maratona de Lisboa.

Comecei por procurar na internet estatística de outras maratonas e descobri este site com a análise de todas a maratonas efetuadas nos Estados Unidos em 2012.

Perfil Demográfico

Dos 1837 atletas que terminaram a prova apenas 203 foram mulheres, cerca de 11%.


Esta disparidade contrasta com os dados dos EUA onde a proporção anda em torno dos 60/40 (60% homens, 40% mulheres). Para encontrar uma proporção semelhante nos EUA temos de recuar até ao início dos anos 1980.

Os dados da prova que consegui não têm informação da idade dos atletas, apenas o escalão. Desta forma não é muito fácil fazer uma caracterização da idade, uma vez que o escalão Sénior abarca atletas de uma faixa etária muito grande (18-35). No entanto, mesmo com esta ressalva, o escalão com maior número de atletas masculinos é o 40-44 e nas mulheres o Senior, o que está em linha com os dados das grandes maratonas internacionais. 

1088 atletas tinham mais de 40 anos - 59%. Este é um valor elevado quando comparado com os EUA - 46%.

Terminaram a prova atletas de 40 Nacionalidades. Sem grande surpresa eis o Top10 dos países com mais atletas. Uma nota curiosa terminaram a prova 4 Noruegueses, os 4 com quem eu falei no regresso de Metro.

Tempos Médios

O tempo médio da prova foi 4h13m39s, o que revela uma prova relativamente rápida, a média em 2012 nos EUA foi 4h30m21s. Não esquecendo as condições em que a prova se realizou, muito calor e muito Sol.

Por escalão, no sector feminino, sem grande surpresa o mais rápido é o Senior. É o escalão com o maior número de atletas onde as profissionais representam uma parte significativa.
Já nos homens, o escalão mais rápido é o M35. Os séniores e os M40 têm praticamente o mesmo tempo médio, não esquecendo que os atletas profissionais com tempos estratosféricos são séniores. Mas mesmo a diferença para os 2 escalões seguintes é muito pequena, sendo que o tempo do M50 é mesmo inferior ao M45. Estes dados vêm confirmar a ideia que com o aumentar da distância da prova o factor idade tende a esbater-se.


Cerca de 40% dos atletas terminaram em menos de 4h e 88% em 5h. A “hora de ponta” foi entre as 3h45 e 4h45, 57% dos atletas chegaram nesse intervalo.

Nos EUA em 2012 30% dos atletas terminaram em menos de 4h e apenas 70% em menos de 5h.

O quadro seguinte mostra o número por tempo e por escalão.

Não existem dados para contabilizar os DNF.

Conclusão

Estes dados revelam que embora o número de atletas seja relativamente pequeno, tendem a estar bem preparados (tempo médio inferior à média nos EUA e apenas 12% dos atletas acima das 5h). O tempo médio é certamente influenciado pelo facto da percentagem de mulheres ser muito pequena, mas mesmo o tempo médio dos homens é inferior à média americana. A Maratona atrai atletas mais veteranos, esse factor é ainda mais notório em Portugal com quase 60% dos atletas com mais de 40 anos.

sábado, 12 de outubro de 2013

Rock'n'Roll Maratona de Lisboa

Domingo corri a minha primeira Maratona.

Acordei antes do despertador e fiquei à espera que tocasse para finalmente me poder levantar. Era finalmente o dia. O dia com que andava a ansiar há meses tinha finalmente chegado.

Mal me levantei tive logo de ir WC e pensei: Porreiro, assim fica a questão já resolvida! Depois de tomar o pequeno almoço oficial pré-prova, deu-me vontade outra vez: Hum, antes agora do que na hora da partida! Despachei-me em modo ultra silencioso para não acordar o resto da casa e depois de "plastificar" o bilhete de comboio (mais sobre o assunto nas notas finais...) mesmo antes de sair de casa, nova investida à casa de banho: MAU, intestinos vejam lá se atinam! Acho que perceberam a mensagem e durante toda a prova estive impecável nessa parte.

Devido à partida ser em Cascais e eu morar a uma distância andável da Estação da CP de Oeiras, tinha a logística simplificada e cheguei bem cedo à zona da partida.

Ainda ensonado já pronto para a partida!
Ainda estavam poucos atletas. Andei um pouco a ver se encontrava alguém conhecido e ia ouvindo as conversas, havia muita gente a correr a distância pela primeira vez. Tive o prazer de conhecer a Isa e o Vitor que estavam com o João. Mais umas voltas e finalmente encontrei o meu amigo Fernando que também se ia estrear na Maratona. Decidimos ir fazer o resto da espera dentro do "garrafão" o que nos permitiu sair relativamente à frente.

Com o meu amigo Fernando.
Finalmente eram 10h05, era a hora, o culminar de 4 meses de dedicação iam finalmente ser testados. Acho que pela primeira vez em provas comecei a correr ao meu ritmo antes do pórtico da partida e não tive de fazer qualquer zigzag. Tal como o video, também passei por 8 estados:

1 - Excitação ( 0 -15 km)


Os primeiros km foram uma alegria. O pelotão ia compacto mas ia sempre no meu ritmo. O plano era fazer os primeiros km um pouco acima dos 5min/km para aquecer e depois passar para um pouco abaixo a partir do km 5. Pela primeira vez levei um segundo telemóvel só para tirar fotos, afinal tenho um blog para manter! :)
Epá isto de tirar fotos a correr é divertido!
Passei pelo Zé Luís, outro amigo com quem treino habitualmente, que já tem bastante experiência em Maratonas e obviamente tive que tirar uma foto. Passei a bandeira das 3h45 e poucos metros mais à frente sou ultrapassado a velocidade supersónica pela bandeira das 3h30... hum...acho que o pacer das 3h30 estava a dormir na partida e depois acelerou para recuperar.

O Zé Luís a espalhar o seu charme.
Ao passar a bandeira das 3h45, haviam um autêntico "Muro" de atletas a ultrapassar.
Havia bastante gente nas ruas e com os músculos carregados de glicogénio nem dei pela subida até ao casino. Esta era uma parte do percurso que quase podia fazer de olhos fechados, tantas foram as vezes que por aqui passei nos últimos meses. Os km iam passando sentia-me muito bem e estava desejoso de chegar a Oeiras, pois sabia que ia ter a minha família à espera. Continuava super excitado e tirava fotos.

Deixa lá ver se vêm muitos atletas atrás...
E mais uma foto que preciso de muitas para o Blog.
Olá casa! (não é a minha casa mas fica perto)
Finalmente chegava a Oeiras e exactamente onde tínhamos combinado estavam lá a Inês(com a Mafalda) a Margarida e os meus pais que vieram de propósito do Alentejo para me verem. Obrigado Pais!

Passagem em Oeiras para o apoio da Família.
Fui planeando o que faria quando passasse pela Inês, e felizmente o meu pai apanhou em filme. :)

video

2 - Negação (15km - 22km)


Após as emoções de passar por Oeiras foi altura de retornar à Marginal e voltar à prova. Lembro-me de olhar para o relógio e ver uma pulsação alta, 10 bpm acima do que seria de esperar face ao ritmo que levava. "Se calhar é por causa da subida.". Uns metros mais à frente os bpm continuam altos "Deve ser da adrenalina de estar em prova...". Em Paço de Arcos "O Relógio deve estar com problemas, não me sinto assim tão cansado...". Obviamente que o relógio estava certo, estava a desgastar-me muito mais depressa que nos treinos. Nunca me senti muito incomodado pelo calor, mas a verdade é que deve ter sido esse o grande culpado. Ao analisar os dados já em casa verifiquei que das quase 4 horas que levei a percorrer os 42,195km, em 3h19 as pulsações estiveram na zona 4 (Very Hard)...

O sorriso ficou em Oeiras...
 No km18 sou ultrapassado por um atleta cuja cara me parece familiar. Acelero um pouco para me colocar ao seu lado e reparo na sapatilhas amarelas. Era o Nuno Ferreira. Meti conversa e lá fomos alguns km's na conversa.

Nuno, deixa-me tirar-nos uma foto que é para o Blog.
Chegamos finalmente à zona do passeio de Caxias. Para mim este foi um dos pontos fortes da
organização. Muita gente não sabia deste "desvio", e o factor surpresa ajudou à experiência. Não só evitou uma subida muito diíicil como proporcionou uma vista sobre o rio fenomenal. A organização capitalizou ainda mais o cenário colocando voluntários com as bandeiras dos países dos atletas, o que certamente muito agradou aos atletas internacionais.

Passagem pela Cruz Quebrada, muito fixe, dava para sorrir outra vez.
O enquadramento perfeito, o Tejo, a Ponte a Cidade, e as bandeiras.
Quando voltámos à Marginal disse ao Nuno para seguir porque o ritmo era demasiado forte para mim. Havíamos de nos cruzar mais duas vezes. Estes km's foram os mais rápidos de toda a prova, abaixo do 5min/km. Pouco depois estava em Algés a passar o pórtico a indicar a metade do percurso. Uma das coisas que aprendi nesta prova é que metade de uma Maratona não é uma Meia-Maratona (a segunda metade são para aí umas três meias...). "Estou muito bem não há problema!"

Hoje é o meu dia! Meia já está!
A última foto tirada com o telemóvel...

3 - Choque (22km - 30km)


A partir daqui começou a custar. O telemóvel foi para o bolso para nunca mais sair. O percurso entre Algés e o Cais do Sodré parecia nunca mais acabar. O ritmo ia caindo e cada km levava mais tempo a fazer que o anterior. Quase desde o início que se viam atletas a andar, mas nesta fase eram às dezenas. A única coisa que me fazia manter o passo de corrida era saber que o meu pai estaria no Cais à minha espera e tinha combinado uma hora e se andasse não ia conseguir cumprir...

Passagem no Cais, está tudo bem Pai! (só me doi tudo...)

4 - Desespero (30km - 34km)


Após o km30 entramos na volta à baixa, para mim, a parte menos conseguida do percurso. Começando pelo empedrado infernal na Ribeira das Naus, mas quem é que teve a ideia de colocar calhaus pontiagudos a fazer de estrada? Era toda a gente a utilizar os 20cm de pedra lisa entre a estrada e o passeio. Depois o quase total desinteresse das pessoas. Pouca gente a puxar pelos atletas, mais interessados em conseguir passar a estrada. Na rua da Prata fui inclusivamente albarroado por um par de homens que decidiram passar a rua de costas para o sentido da corrida...

Já tudo doía, as pulsações estavam altíssimas, quase a entrar na zona 5 (Maximal), e  continuava a ultrapassar atletas que andavam o que era muito desmotivador. Consegui resistir até perto dos 34km, mas aí, no abastecimento tive de andar. Já não havia energia para hidratar e correr simultaneamente.

5 - Solidão (34km - 37,4km)


Entro depois naquilo que denominei o "Deserto de Xabregas", outro ponto fraco do percurso. Uma zona feia e quase deserta de pessoas. Com todo este sofrimento começo a imaginar os pensamentos dos atletas estrangeiros:"Possibly the World's most gorgeous course..yeah right...". Continuo a minha estratégia de andar nos abastecimentos e manter uma corrida no entremeio. E assim sigo até ao km 37,5...

6 - O "Muro" (37,4km - 39km)


Não, não bati no muro. Ou pelo menos acho que não bati. Havia muito cansaço, as pernas estavam muito doridas, mas nunca me senti completamente esgotado. Mas sem qualquer aviso tenho uma cãimbra na perna esquerda. É uma dor tão forte e inesperada que nem consigo continuar a andar, vou para a berma e sento-me no chão. Mal me sento penso: "Porra, e agora como me vou levantar...". Fico ali no chão a tentar alongar o músculo. Parece que fico ali uma eternidade mas foram menos de 2 minutos. Vejo vários atletas passar, inclusivamente a bandeira das 3h45.

Não sei muito bem como mas consigo levantar-me e verifico que é possível andar. Os 1,5km seguintes são feitos a andar. Nunca cheguei a pensar em desistir mas o sofrimento era muito e lembro-me de dizer para mim o habitual "Mas porque me meto nestas coisas... claramente menosprezei a distância...". Ao longe vejo a placa dos 39km.

7 - Convicção (39km - 41km)


"Mas sou um homem ou um rato? Não estive quatro meses a treinar para me arrastar até à meta. Só faltam 3km. Essa distância nem chega a ser um aquecimento. Vou correr!"
E corri, e senti-me bem outra vez! Provavelmente poderia ter recomeçado a correr mais cedo mas tinha medo que a cãimbra voltasse. Ao km 40 vejo o contador do tempo, 3h48. O sub 4h era possível! Nova onda de motivação que coincide com a entrada no Parque das Nações.

Esquerda, direita, esquerda, direita... Sou um atleta, vou conseguir!
Há novamente gente na rua e ao contrário da baixa estão a puxar pelos atletas. Já tinha ouvido uns "Força Rui" pelo caminho, mas aqui perdi a conta. Ia sempre agradecendo com um leve abano de braço porque a pouco energia restante estava dedicada a colocar uma perna à frente da outra.

8 - Exaltação (41km - 42,195km)


Quando entro na avenida D JoãoII sinto pela primeira vez que vou conseguir chegar ao fim. O público forma um corredor contínuo ao longo da avenida e a sensação é incrivel. Um grupo de camisolas laranja dos R4F grita exuberantemente e quando reparam na minha tshirt começam a gritar "Força Rui" (são claramente os maiores! Obrigado malta dos R4F!), nesse mesmo instante vejo novamente o meu pai a tirar fotos, vêm lágrimas aos olhos e começo a soluçar. Preciso de mais de 300m para controlar a respiração.

Estou (glup) bem (glup) Obrigado (glup) Pai! (glup)
Curva, placa dos 42km, só falta 195m. Outra curva, encalho no empedrado com lombas (mas quem é que faz uma recta da meta de uma maratona num empedrado com lombas...). Não vejo a família que grita por mim mas vejo a meta. O placar mostra 3h58 vou conseguir, e já está, corri uma MARATONA.

CONSEGUI!!!!!!
Tinha planeado fazer montes de coisas quando passa-se a meta: Levantar os braços e agradecer poder correr, Gritar e partilhar a minha alegria, Beijar a aliança para dedicar à minha mulher. Mas a clareza de espírito não era muita e apenas parei o relógio e andei.


Lembro-me vagamente de me entregarem a medalha e darem os parabéns. De me obrigarem a parar para tirar uma foto mas tudo o que eu queria era 1 m2 de chão para me poder sentar. Vi o meu pai do lado de fora, recolhi o saco e o gelado e apressei-me a sair.


Chão... Descanso...
Finalmente o resto da família juntou-se e pude celebrar com eles. Foi muito bom tê-los comigo neste momento. Ao longo destes meses de preparação foram eles os mais prejudicados com esta minha "obssessão". O meu muito obrigado.

Obrigado Amor! ;)
Notas Finais:

Como os comentadores políticos também tenho notas finais.

1) Corri a maratona em 3h57m35s, sem consumir um único gel. O único alimento sólido foram cubinhos de marmelada.

2) 10h é uma hora absurda para começar uma maratona em Portugal no Início de Outubro. Mas só quando vi a gravação da tv percebi o porque dos 5 min, e a Meia 10 min depois. Será que valeu a pena sacrificar a experiencia dos atletas pelo "directo"?

3) A questão de ter de "comprar" um cartão para poder ter comboio "grátis" chateou-me, principalmente depois de não colocarem nada sobre o assunto nas instruções finais, e mesmo quando questionados especificamente por email nada referirem sobre a necessidade do cartão. No regresso já no metro estive a falar com uns Noruegueses que estavam muito confusos com a situação e só perguntavam se o transporte não era grátis.

4) No geral a organização esteve muito bem. Os abastecimentos eram bons e os voluntários muito simpáticos (poderia ter havido mais abastecimentos de bebida energética).

5) O "desvio" na Cruz Quebrada foi o ponto alto do percurso, o "deserto" de xabregas o pior.

A pose para a posteridade!


domingo, 6 de outubro de 2013

Hoje foi o dia... Sou Maratonista!


Hoje não dá para mais... Apenas para dedicar a minha primeira Maratona aos meus três tesouros.

Obrigado!

sábado, 5 de outubro de 2013

Amanhã é o Dia!

Amanhã por esta hora já estarei a correr a minha primeira maratona. A ansiedade é muita mas estou confiante.

Foram 4 meses de intensa preparação: 70 treinos de corrida, 982km em pouco mais de 83horas. Foi a primeira vez que segui um plano de preparação para uma prova. Nos primeiros meses consegui cumprir o plano quase na íntegra mas este último mês foi um pouco mais irregular. As nuvens negras das lesões ensombraram o final da caminhada mas tenho fé que amanhã, tal como o dia, estará um céu limpo e solarengo.

Fiz 9 dos 11 treinos longos planeados, sendo que nunca tinha corrido mais que os 21km da meia. De treino para treino ia aumentando a distância sendo que actualmente (espero que até amanhã) o meu record seja 32km. Fiz quase todos estes treinos sozinho. Não me custou psicologicamente, sou uma pessoa introvertida e fico bem só com os meus pensamentos, mas penso que teria sido uma experiência mais completa se tivesse integrado mais treinos em grupo. Mas, quer pela minha difícil logística de minimizar o impacto na vida familiar, como pelo facto de querer dar sempre 100% no treino (algo só alcançável em grupo se todos os elementos forem mais rápidos que nós) acabou por frustrar todas as minhas tentativas de treinar em grupo.
Amanhã “seremos” um grande grupo de mais de 2500 atletas. Haverá os elites e os estreantes, os veteranos e os jovens. Mas acima de tudo haverá um percurso de 42km e 195m que nos levará a um objetivo muito esperado. 

Haverá também um grupo de pessoas muito boa onda, algumas que não se conhecem pessoalmente, mas que têm em comum, para além do prazer de correr, o gostarem de partilhar as suas experiências. Espero amanhã poder conhecer pessoalmente algumas delas e se por acaso passarem por mim não hesitem em meter conversa!
Já sabem, se passarem pelo dorsal 1691 digam olá (é capaz de ser mais facil identificar o gajo com "RUI" escrito no peito... ;)
O equipamento está pronto e testado. A telemetria está operacional. O corpo está descansado e a mente está focada (o raio das borboletas é que não largam a minha barriga…) ;)

Muito boa corrida para todos os que amanhã vão testar os seus limites, quer seja na Maratona, Meia ou Mini, o importante é que desfrutem desse prazer que é correr.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Resumo Mensal - Setembro 2013

Setembro foi o quarto e último mês de preparação para a Maratona, mas infelizmente não teve a regularidade e a intensidade que estava planeada.


Até começou bem, logo com um treino longo de 32km, batendo o meu record de distância, que espero vir a quebrar no próximo Domingo. :)

Mas depois começaram os contratempos. Neste último mês, fruto da intensidade dos treinos (caimbra no gémeo direito) e alguma má sorte (torcer o pé) tive de abortar 3 treinos e perder outros tantos para recuperar.

Como se não bastasse, a três semanas da Maratona, fui participar na Corrida do Tejo. Ao principio o plano era engloba-la num treino longo, mas depois acabei por fazer apenas os 10km da prova ao meu ritmo para essa distância. No dia seguinte ainda tentei remediar a coisa com um treino de 19km bem ritmado (no total foram 29km a 4:38 em menos de  20h), mas não é a mesma coisa. O último treino longo foi no dia 8 de Setembro...

Devido a estes contratempos acabei por passar mais tempo no ginásio do que estava planeado.


Em termos de corrida os números foram:
Treinos: 17
Distância: 220km
Tempo: 19:17:58s
Passo Médio: 5:15 min/km
Ganho de Elevação: 1614m
Frequência Cardiaca Média: 157 bpm
Calorias: 15487 cal

Foi um mês com muitos altos e baixos em termos de motivação e moral. Se comecei o mês super positivo, a cada "susto" lá ia a confiança cá para baixo. Depois vinha um treino bom e recuperava um pouco a disposição. O facto de o último treino longo ter sido a 8 de Setembro também não ajuda a minha confiança (o plano contemplava mais 2). Acho que se a Maratona tivesse sido a 6 de Setembro em vez de 6 de Outubro estaria muito melhor, pelo menos psicologicamente (o treino de dia 8 foi épico, em Beja, 32.6km em 2h48, com os BPM certinhos e só 4min na zona 4).

Esta semana tem sido muito ligeira mas tem corrido bem, o importante é não estragar tudo agora que estou praticamente na linha da partida. As borboletas na barriga já começaram a fervilhar...